quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A vida de Santiago custou R$ 150,00?

Fonte: Correio Braziliense

Ao advogado, Caio disse que tem medo de ser morto. Ele e Fábio Raposo devem ser indiciados por homicídio

ÉTORE MEDEIROS e RENATA MARIZ


Caio Silva de Souza, de 22 anos, acusado de acender o rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade, no Rio, está preso no Complexo de Gericinó, em Bangu, Zona Oeste da cidade. Ele foi detido na madrugada de ontem em Feira de Santana (BA), de onde pretendia fugir para o Ceará, mas a namorada do auxiliar de serviços gerais o convenceu, por telefone, a se entregar. O advogado dele, Jonas Tadeu Nunes, que também defende Fábio Raposo — o outro rapaz envolvido no caso e que está preso desde domingo —, disse que seus clientes foram aliciados por grupos políticos que financiam a violência nas manifestações. De acordo com ele, Caio recebia R$ 150 (leia mais na página 6). 

A despeito das declarações do defensor, Caio confirmou, em entrevista à imprensa, que acendeu o rojão, sem saber que se tratava de um explosivo, pois pensou ser um artefato conhecido como cabeça de nego, que explode produzindo barulho. Mas, diante do delegado Maurício Luciano de Almeida e Silva, responsável pelo caso, o jovem preferiu o silêncio. "Não admitiu nem negou nada que lhe é atribuído", informou o delegado. "Imagino que está esperando a estratégia do advogado e que falará no momento oportuno."
Mesmo sem o depoimento, a análise das imagens, segundo Silva, sugere que Caio e Fábio agiram de maneira orquestrada. Segundo o advogado, demorou dois dias o processo de convencer Caio a se apresentar à polícia. "Ele tinha marcado um horário para se entregar. No lugar dele, compareceu o pai, que contou que o filho tinha fugido e estava desesperado. Disse que ele não queria se entregar", contou Nunes. "O receio dele era ser morto. O convenci a parar na próxima cidade, Feira de Santana, entrar em uma pensão, dar outro nome, pois já tinha saído o mandado, e esperar que a gente iria buscá-lo".
O destino inicial de Caio seria Ipu, cidade cearense onde o avô dele mora. O delegado Silva disse que Caio "estava acuado, assustado, com muita fome, após dois dias sem se alimentar". Segundo o policial, o rapaz não tinha dormido e estava hospedado em um quarto pequeno. O delegado também informou que o jovem participou de outros atos de violência durante uma manifestação e que ele tem quatro queixas na polícia: em duas, disse ter sido agredido; as outras passagens foram por suspeita de porte de drogas, que não foram comprovadas.
 

Inquérito

O delegado pretende enviar o inquérito ao Ministério Público amanhã. Segundo ele, quase todas as informações necessárias, incluindo laudos periciais, foram colhidas ontem. Ele disse que falta apenas o depoimento de uma testemunha. Embora não tenha concluído o inquérito, os acusados pela morte de Santiago Andrade, atingido por um rojão na cabeça quando cobria um protesto no centro do Rio contra o aumento das passagens de ônibus, na última quinta-feira, devem ser enquadrados no crime de homicídio doloso, que pode ser qualificado por uso de explosivo.
 

Duas perguntas para/ Jonas Tadeu Nunes, advogado 

Qual será a estratégia da defesa de Caio e Fábio?
Considero que o artefato (rojão) não configura crime de explosão. Para mim, explosão é dinamite, granada… Se ele fosse considerado explosivo, não seria vendido livremente, usado em comemorações, festas, qualquer pessoa pode comprá-lo, ele seria fiscalizado pelo Exército, o que não é. Homicídio qualificado não foi, o que aconteceu foi lesão corporal, resultande de negligência, imprudência, seguida da morte do rapaz (Santiago).
Quem paga a defesa? O senhor está trabalhando de graça?
Conheço Fábio desde que ele tinha 10 anos de idade, é amigo dos estagiários do escritório. Peguei o caso e comecei a ter uma compaixão pela situação dele, que aumentou quando comecei a procurar o Caio, ter contatos com amigos dele e fui verificando a extrema miséria que esses garotos estão vivendo. É pura compaixão, não estou cobrando nenhum centavo. Já o Fábio é de classe média baixa, não é miserável, pobre, como o outro (Caio), que é muito pobre. 
 

Perfil CAIO SILVA DE SOUZA

Entre a calma e a raiva

Caio Silva de Souza deu um rosto à violência que marca os protestos iniciados em junho do ano passado em diversas partes do país. Desde que seu retrato foi divulgado, na tarde de terça-feira, marcando o início da caçada da polícia ao acusado da morte do cinegrafista Santiago Andrade, todos se perguntam quem é o garoto apontado como responsável pela primeira morte causada por manifestantes. O jovem de 22 anos é funcionário terceirizado de uma empresa de limpeza. Trabalha como auxiliar de serviços gerais no Hospital Rocha Faria, Zona Oeste da capital fluminense.
Filho de uma família extremamente humilde, morador da Baixada Fluminense, Caio participou de várias manifestações. O objetivo maior era lutar contra o preço abusivo das passagens de transporte público, disse a mãe. Marilene Mendonça contou que o filho se sentiu um herói quando a prefeitura recuou do aumento da tarifa programado para 2013. "Caio ganhava um salário mínimo e pagava R$ 450 de aluguel, o que sobrava era o da passagem, para ir e voltar do trabalho", disse o advogado Jonas Tadeu Nunes, que o defende.
A motivação, no entanto, não era apenas exigir mudanças nas políticas de transporte. O próprio advogado conta que Caio "fazia da manifestação um complemento de renda". "Pelo que declarou, ele recebia (dinheiro), era aliciado para isso (para fazer tumulto)", diz. A presença em protestos violentos já tinha levado Caio, no ano passado, à delegacia. Em uma ocasião, ele foi como vítima de agressão, em outra, foi detido por crime de menor potencial ofensivo. Em 2010, o jovem já havia sido levado para averiguação por suspeita de tráfico, por duas vezes, mas os casos foram arquivados por falta de provas. 
Relatos de pessoas próximas ao jovem, segundo o delegado Maurício Luciano de Almeida e Silva, que investiga a morte de Santiago Andrade, definem Caio como "uma pessoa completamente diferente do que demonstrou" na manifestação. "As pessoas dizem que ele é calado, tranquilo. No ambiente de trabalho, ficaram surpresas ao saber do envolvimento de Caio no episódio, o que leva a crer que o Caio, sob efeito da multidão, se transforma". 
A situação precária da família também chamou a atenção do delegado. "É de cortar o coração". O garoto pediu a ele que consiga apoio de um assistente social para a mãe, que é desempregada. Em entrevista à imprensa, Caio lamentou ter tirado a vida "de um trabalhador", comparando Santiago ao pai. O envolvimento do jovem preso desde ontem com o grupo conhecido como black bloc, pela violência empregada em protestos, ainda é uma incógnita. Ele disse, porém, que não se identifica como tal, embora estivesse mascarado no momento em que detonou o rojão.(EM e RM)

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