Ao advogado, Caio disse que tem medo de ser morto. Ele e Fábio Raposo devem ser indiciados por homicídio
ÉTORE MEDEIROS e RENATA MARIZ
Caio Silva de Souza, de 22 anos, acusado de acender o rojão que matou o
cinegrafista Santiago Andrade, no Rio, está preso no Complexo de
Gericinó, em Bangu, Zona Oeste da cidade. Ele foi detido na madrugada de
ontem em Feira de Santana (BA), de onde pretendia fugir para o Ceará,
mas a namorada do auxiliar de serviços gerais o convenceu, por telefone,
a se entregar. O advogado dele, Jonas Tadeu Nunes, que também defende
Fábio Raposo — o outro rapaz envolvido no caso e que está preso desde
domingo —, disse que seus clientes foram aliciados por grupos políticos
que financiam a violência nas manifestações. De acordo com ele, Caio
recebia R$ 150 (leia mais na página 6).
A despeito das
declarações do defensor, Caio confirmou, em entrevista à imprensa, que
acendeu o rojão, sem saber que se tratava de um explosivo, pois pensou
ser um artefato conhecido como cabeça de nego, que explode produzindo
barulho. Mas, diante do delegado Maurício Luciano de Almeida e Silva,
responsável pelo caso, o jovem preferiu o silêncio. "Não admitiu nem
negou nada que lhe é atribuído", informou o delegado. "Imagino que está
esperando a estratégia do advogado e que falará no momento oportuno."
Mesmo sem o depoimento, a análise das imagens, segundo Silva, sugere
que Caio e Fábio agiram de maneira orquestrada. Segundo o advogado,
demorou dois dias o processo de convencer Caio a se apresentar à
polícia. "Ele tinha marcado um horário para se entregar. No lugar dele,
compareceu o pai, que contou que o filho tinha fugido e estava
desesperado. Disse que ele não queria se entregar", contou Nunes. "O
receio dele era ser morto. O convenci a parar na próxima cidade, Feira
de Santana, entrar em uma pensão, dar outro nome, pois já tinha saído o
mandado, e esperar que a gente iria buscá-lo".
O destino inicial
de Caio seria Ipu, cidade cearense onde o avô dele mora. O delegado
Silva disse que Caio "estava acuado, assustado, com muita fome, após
dois dias sem se alimentar". Segundo o policial, o rapaz não tinha
dormido e estava hospedado em um quarto pequeno. O delegado também
informou que o jovem participou de outros atos de violência durante uma
manifestação e que ele tem quatro queixas na polícia: em duas, disse ter
sido agredido; as outras passagens foram por suspeita de porte de
drogas, que não foram comprovadas.
Inquérito
O delegado pretende enviar o inquérito ao Ministério Público amanhã.
Segundo ele, quase todas as informações necessárias, incluindo laudos
periciais, foram colhidas ontem. Ele disse que falta apenas o depoimento
de uma testemunha. Embora não tenha concluído o inquérito, os acusados
pela morte de Santiago Andrade, atingido por um rojão na cabeça quando
cobria um protesto no centro do Rio contra o aumento das passagens de
ônibus, na última quinta-feira, devem ser enquadrados no crime de
homicídio doloso, que pode ser qualificado por uso de explosivo.
Duas perguntas para/ Jonas Tadeu Nunes, advogado
Qual será a estratégia da defesa de Caio e Fábio?
Considero que o artefato (rojão) não configura crime de explosão. Para
mim, explosão é dinamite, granada… Se ele fosse considerado explosivo,
não seria vendido livremente, usado em comemorações, festas, qualquer
pessoa pode comprá-lo, ele seria fiscalizado pelo Exército, o que não é.
Homicídio qualificado não foi, o que aconteceu foi lesão corporal,
resultande de negligência, imprudência, seguida da morte do rapaz
(Santiago).
Quem paga a defesa? O senhor está trabalhando de graça?
Conheço Fábio desde que ele tinha 10 anos de idade, é amigo dos
estagiários do escritório. Peguei o caso e comecei a ter uma compaixão
pela situação dele, que aumentou quando comecei a procurar o Caio, ter
contatos com amigos dele e fui verificando a extrema miséria que esses
garotos estão vivendo. É pura compaixão, não estou cobrando nenhum
centavo. Já o Fábio é de classe média baixa, não é miserável, pobre,
como o outro (Caio), que é muito pobre.
Perfil CAIO SILVA DE SOUZA
Entre a calma e a raiva
Caio Silva de Souza deu um rosto à violência que marca os protestos
iniciados em junho do ano passado em diversas partes do país. Desde que
seu retrato foi divulgado, na tarde de terça-feira, marcando o início da
caçada da polícia ao acusado da morte do cinegrafista Santiago Andrade,
todos se perguntam quem é o garoto apontado como responsável pela
primeira morte causada por manifestantes. O jovem de 22 anos é
funcionário terceirizado de uma empresa de limpeza. Trabalha como
auxiliar de serviços gerais no Hospital Rocha Faria, Zona Oeste da
capital fluminense.
Filho de uma família extremamente humilde,
morador da Baixada Fluminense, Caio participou de várias manifestações. O
objetivo maior era lutar contra o preço abusivo das passagens de
transporte público, disse a mãe. Marilene Mendonça contou que o filho se
sentiu um herói quando a prefeitura recuou do aumento da tarifa
programado para 2013. "Caio ganhava um salário mínimo e pagava R$ 450 de
aluguel, o que sobrava era o da passagem, para ir e voltar do
trabalho", disse o advogado Jonas Tadeu Nunes, que o defende.
A
motivação, no entanto, não era apenas exigir mudanças nas políticas de
transporte. O próprio advogado conta que Caio "fazia da manifestação um
complemento de renda". "Pelo que declarou, ele recebia (dinheiro), era
aliciado para isso (para fazer tumulto)", diz. A presença em protestos
violentos já tinha levado Caio, no ano passado, à delegacia. Em uma
ocasião, ele foi como vítima de agressão, em outra, foi detido por crime
de menor potencial ofensivo. Em 2010, o jovem já havia sido levado para
averiguação por suspeita de tráfico, por duas vezes, mas os casos foram
arquivados por falta de provas.
Relatos de pessoas próximas ao
jovem, segundo o delegado Maurício Luciano de Almeida e Silva, que
investiga a morte de Santiago Andrade, definem Caio como "uma pessoa
completamente diferente do que demonstrou" na manifestação. "As pessoas
dizem que ele é calado, tranquilo. No ambiente de trabalho, ficaram
surpresas ao saber do envolvimento de Caio no episódio, o que leva a
crer que o Caio, sob efeito da multidão, se transforma".
A
situação precária da família também chamou a atenção do delegado. "É de
cortar o coração". O garoto pediu a ele que consiga apoio de um
assistente social para a mãe, que é desempregada. Em entrevista à
imprensa, Caio lamentou ter tirado a vida "de um trabalhador",
comparando Santiago ao pai. O envolvimento do jovem preso desde ontem
com o grupo conhecido como black bloc, pela violência empregada em
protestos, ainda é uma incógnita. Ele disse, porém, que não se
identifica como tal, embora estivesse mascarado no momento em que
detonou o rojão.(EM e RM)

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