Fonte: Valor Econômico
Por Leandra Peres e Rafael Bitencourt | De Brasília
A pressão fiscal criada pelo setor elétrico sobre as contas públicas
será muito maior do que o previsto até agora. Além dos R$ 9 bilhões que
já estão no orçamento federal, o Tesouro Nacional será pressionado a
arrumar outros R$ 5,6 bilhões para cobrir gastos com subsídios
tarifários e indenizações a empresas de geração de energia e também
precisará achar espaço para socorrer as distribuidoras que estão
comprando energia mais cara por causa da ligação das termelétricas - uma
conta que o setor privado estima que pode chegar a R$ 18 bilhões esse
ano.
A alternativa a esse gasto adicional, que significaria uma
piora na meta de superávit fiscal, é repassar os custos à tarifa dos
consumidores finais. O impacto na inflação, já próxima do teto de 6,5%
ao ano, não será irrelevante. Segundo cálculos da Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel), será necessário um repasse de 4,6% para as
contas de luz para cobrir o desequilíbrio de R$ 5,6 bilhões já estimado
nas contas do setor. Não há projeção para o impacto que a ajuda às
distribuidoras significaria nas tarifas. O governo também poderá
combinar algum repasse aos preços com uma nova rodada de ajuda às
distribuidoras.
"Já foi declarado tanto pelo ministro Mantega
[Guido Mantega, da Fazenda] como pelo ministro Lobão [Edison Lobão, de
Minas e Energia] que, se houver necessidade, haverá aporte para cobrir o
custo das térmicas no ano de 2014", disse o diretor da Aneel, André
Pepitone.
A Aneel também quer adiar uma parte do aumento das
contas de luz que aconteceria neste ano. Pelas regras atuais, as tarifas
de 2014 seriam corrigidas levando em conta que os consumidores
reembolsariam parte do dinheiro que o Tesouro repassou ao setor elétrico
em 2013. Pepitone, no entanto, informou que este reembolso à CDE não
será feito pelo consumidor em 2014 e que o governo considera "isentar"
os consumidores desse pagamento. O retorno dos recursos à CDE pode ser
feito em até cinco anos.
O governo enfrenta hoje um processo de
perda de credibilidade da política fiscal. Investidores, economistas e
agentes do mercado financeiro esperam um sinal de austeridade fiscal
quando o Tesouro anunciar o contingenciamento das despesas orçamentárias
do ano, o que deve acontecer até o próximo dia 20. Não se sabe se essa
despesa adicional com o socorro às distribuidoras será incorporada ao
decreto de contingenciamento, repassada às tarifas ou se o governo
encontrará alguma outra solução. O próprio governo argumenta que não há
como estimar essa despesa porque não se sabe como será o regime de
chuvas.
Ontem, a diretoria da Aneel colocou em consulta pública a
proposta de orçamento da CDE para esse ano. Entre as receitas estão dos
R$ 9 bilhões previstos pelo Tesouro no orçamento de 2014. Já pelo lado
das despesas, há apenas R$ 309 milhões em repasses às distribuidoras de
energia. Como o próprio relator esclareceu em seu voto, esses pagamentos
são relativos a 2013. Não há nada previsto para 2014. Para se ter uma
ideia da dimensão que o problema pode alcançar, no ano passado, o
Tesouro transferiu R$ 9,8 bilhões à CDE para socorrer as distribuidoras.
A CDE é um fundo setorial que cobre despesas que vão desde a tarifa
social de energia, o programa Luz para Todos e o subsídio ao óleo
combustível usado no sistema elétrico do Norte do país. No ano passado,
excepcionalmente, um decreto da presidente Dilma Rousseff determinou que
o fundo também cobrisse os custos decorrentes da ligação das
termelétricas. Mas essa ajuda estava restrita aos gastos ocorridos até
dezembro. Se houver a decisão de uma nova ajuda, será preciso um outro
decreto.
Com a falta de chuvas, tanto em 2013 quanto nesse
início de ano, o governo vem acionando regularmente as usinas
termelétricas, que custam muito mais para operar do que as
hidrelétricas. Isso faz com que o preço da energia suba. Atualmente,
está no máximo permitido em lei, de R$ 822,83.
As distribuidoras
têm dois problemas. São obrigadas a comprar essa energia mais cara
porque parte das usinas geradoras não aderiu à proposta do governo de
renovação antecipada das concessões. Com isso, as distribuidoras ficaram
sem uma parte da energia que são obrigadas a fornecer aos consumidores.
Para cobrir esse descasamento, compra energia pelo preço alto. O outro
problema é no caixa: quando o valor da energia sobe, as distribuidoras
fazem o pagamento quase à vista, mas só recebem o dinheiro de volta um
ano depois, no reajuste das tarifas.
A Aneel estimou em R$ 17,9
bilhões as despesas totais da CDE em 2014. O peso maior está na contas
de combustíveis dos sistemas da região Norte (R$ 4,5 bilhões), subsídio a
descontos na conta de energia (R$ 3,8 bilhões) e indenizações à
concessionárias (R$ 3,1 bilhões).
Procurado, o Tesouro Nacional informou que não comentaria o assunto e caberia à Aneel fazer os esclarecimentos.

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