Fonte: Correio Brasiliense
O Distrito Federal aparece na primeira colocação no ranking nacional da quantidade de pessoas autorizadas a portar revólver, pistola e espingarda. A maioria recorre aos armamentos por proteção, mas especialistas alertam sobre os riscos da iniciativa
MARA PULJIZ
GABRIELLA FURQUIM
RODOLFO COSTA
Em tempos de criminalidade em alta na capital do país, os brasilienses decidiram se proteger por conta própria. O Distrito Federal aparece, proporcionalmente à população, como a unidade da Federação com a maior quantidade concedida de porte de arma no país. Está à frente de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Em Brasília, entre 2012 e 2013, a Polícia Federal liberou 881 autorizações, uma média de 352,4 por milhão de habitantes. Os números são do Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal (veja População armada).
Em 2012, Brasília teve 521 licenças liberadas e 360 em 2013. Dessas, 652 (74%) — destinadas a vários tipos de uso, como segurança privada e caça — são temporárias, ou seja, podem ser suspensas a qualquer momento caso a pessoa cometa algum tipo de transgressão. Outras 72 foram liberadas especificamente para defesa pessoal (comprovada a necessidade). Mas a autorização para o cidadão ter uma arma é motivo de polêmica entre especialistas e parte dos moradores do DF. Enquanto uns acreditam que os índices de mortes violentas poderiam ser reduzidos com o desarmamento, outros defendem o porte como necessário para proteção e defesa pessoal.
Uma das principais preocupações no aumento de civis armados está na possibilidade de revólveres, pistolas e espingardas legais caírem nas mãos dos criminosos. De janeiro a outubro de 2013, 1.967 armas de fogo foram apreendidas na capital federal, ou 196 por dia. Do total, 23% estavam com adolescentes infratores, segundo levantamento da Secretaria de Segurança Pública do DF.
O medo tem levado a um incremento de registros de matriculados em cursos nas escolas de tiro de Brasília. Há três anos, o Clube Esportivo de Atiradores, Colecionadores e Caçadores do Distrito Federal (Ceac/DF) tinha cerca de 300 alunos. Hoje, há, aproximadamente, 1,1 mil associados. "Esse aumento mostra que o cidadão está farto de tanta impunidade. Vivemos hoje uma violência crescente muito por conta da nossa própria legislação, que é branda e não pune o criminoso como deveria", avalia o presidente da entidade, Pérsio Cláudio Montibello.
A insegurança também atingiu outro público para clubes de tiro: o feminino. "É visível que a violência não preocupa apenas o homem. A dona de casa também está procurando se armar. Quando tínhamos uma só mulher fazendo algum curso era algo que chamava a atenção. Hoje, toda turma tem pelo menos uma", destaca Pérsio.
Um dos responsáveis por ministrar aulas no Ceac/DF é o instrutor de tiro Rodrigo Moreira, credenciado no Exército e na Polícia Federal. Para ele, o medo tomou conta da população. "Até o brasiliense que não tem o perfil do clube tem feito o curso básico de tiro, apenas para segurança própria. Em janeiro, um cliente me procurou após três casas próximas de onde mora terem sido assaltadas", afirma.
Preparação
Quem deseja se armar e saber manusear o equipamento deve estar preparado. É preciso, por exemplo, desembolsar pelo menos R$ 1.115. Segundo o instrutor Rodrigo, só a retirada da documentação obrigatória custa R$ 500. "Mas a pessoa não tem que se preocupar apenas em ter o registro. Ela também desembolsa R$ 615 para fazer o curso prático de tiro, o teórico e o de conduta de segurança com arma de fogo", avisa. Após a devida autorização por parte da Polícia Federal ou do Exército, o porte de arma sai em até 60 dias.Desarmado há sete meses, o ex-policial Napoleão Rodrigues, 51 anos, foi ontem à Polícia Federal para buscar informações sobre o processo de retirada do registro de arma. A insegurança em relação ao aumento da criminalidade o motivou a tentar retomar o porte. "Eu saí da polícia, mas ela não saiu da minha vida. Desde que me aposentei, recebi ameaças. Acaba que sou obrigado a ter uma arma para ter mais proteção", conta. Mesmo assim, ele faz ressalvas a quem busca se armar. "Não aconselho ninguém a ter uma arma em caso de não ter a devida preparação, principalmente psicológica", alerta.
População armada
Confira, por posição no ranking, as unidades da Federação com a maior quantidade de porte de arma concedido em 2012 e em 2013:1º. Distrito Federal
2012: 5212013: 360
Total no período: 881
População: 2,5 milhões de pessoas
Média de 352,4 armas por milhão de habitantes
2º. Rio Grande do Sul
2012: 8022013: 484
Total no período: 1.286
População: 10,7 milhões de pessoas
Média de 120,1 armas por milhão de habitantes
3º. Espírito Santo
2012: 1512013: 104
Total no período: 255
População: 3,5 milhões de pessoas
Média de 72,8 armas por milhão de habitantes
4º. São Paulo
2012: 1.4622013: 1.375
Total no período: 2.837
População: 41 milhões de pessoas
Média de 69 armas por milhão de habitantes
5º. Rio de Janeiro
2012: 5932013: 312
Total no período: 905
População: 16 milhões de pessoas
Média de 56 armas por milhão de habitantes
6º. Paraná
2012: 2222013: 171
Total no período: 393
População: 10,4 milhões de pessoas
Média de 36,7 armas por milhão de habitantes
Ponto crítico
SIM
"Já está comprovado: estatísticas e análises referentes aos crimes cometidos no Brasil nos últimos 40 anos atestam que o maior número de armas nas mãos da população coloca as pessoas em risco. Quanto mais armas, maior as chances de os crimes serem cometidos. Seja dentro casa, seja acidentes domésticos, seja caindo na mão de criminosos. Já é sabido que as armas que estão em circulação são roubadas. As pessoas que compram para se defender entram na mira de criminosos que têm como objetivo mais comum roubar armas, dinheiro e joias. O número de concessão no DF não pode ser maior do que no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde a violência também é constante, e a população, menor. Anualmente, em torno de 70% dos assassinatos cometidos são por arma de fogo. Existe a cultura de que uma arma traz proteção. Mas é uma falsa convicção. O cidadão comum não está preparado para o uso de armas. Quem deve ser preparado é o policial. A orientação é de que, quando abordado por um criminoso, o cidadão não deve reagir. Com uma arma, as chances de reagir e ser vítima de violência é maior. É uma falsa sensação. Os números evidenciam uma necessidade do endurecimento das exigências para conceder o porte de armas.É necessária uma análise para a criação de políticas de controle capazes de reduzir o número de armas em circulação. A população vai agradecer."
Valéria de Velasco, subsecretária de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-Vítima).

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