quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Brasil é dos mais vulneráveis à crise, diz Fed

 Fonte: O Globo

Yellen sugere manutenção de política e anima mercados. Câmara dos EUA afasta risco de calote do Executivo

WASHINGTON E SÃO PAULO


O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) mencionou o Brasil como um dos países emergentes mais vulneráveis à retirada de estímulo monetário à economia americana. De acordo com o relatório semestral da instituição, o país, ao lado de Turquia e Índia, sofreu com a fuga de investidores diante da expectativa de redução das compras de bônus mensais pelo Fed — atualmente em US$ 65 bilhões.
O rendimento cobrado aos títulos brasileiros subiu vertiginosamente, cita o documento. Segundo o relatório, os investidores estão diferenciando os mercados emergentes, evitando aqueles considerados mais vulneráveis por suas políticas fiscais e fundamentos econômicos.
"Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia estão entre as economias que parecem ter sido mais afetadas. Por exemplo, as moedas do Brasil, da Índia e da Turquia recuaram fortemente no meio do ano passado, enquanto as divisas da Coreia do Sul e Taiwan foram mais resilientes. E, nas semanas mais recentes, apesar da ampla venda de moedas de emergentes, rendimentos de títulos de emergentes tenderam a aumentar mais em economias que viram os maiores aumentos ao longo de 2013", diz o relatório.
O texto menciona ainda as ações tomadas pelo Banco Central (BC) brasileiro, como a elevação da taxa de juros e o "relaxamento de algumas restrições à entrada de fluxos de capital que haviam sido impostas durante a crise financeira global". Acrescenta que as medidas de estabilização da economia adotadas após as crises dos anos 1990 ajudaram os países emergentes, inclusive o Brasil, a resistir melhor à presente turbulência. "Mas os emergentes continuam abrigando significativas vulnerabilidades econômicas e financeiras, e até economias mais robustas enfrentam o desafio de estimular a confiança dos investidores."
O relatório do Fed foi enviado ao Congresso americano no mesmo dia em que Janet Yellen apresentou seu primeiro depoimento à Comissão de Finanças da Câmara dos Representantes como presidente do Fed. Yellen reconheceu a volatilidade nos mercados emergentes, provocada em parte pela expectativa dos agentes do mercado em relação à retirada de estímulos monetários à economia, como a redução da compra mensal de bônus. A presidente do Fed insistiu que manterá a política de seu antecessor, Ben Bernanke, e lembrou que o mercado de trabalho americano ainda não se recuperou da crise, sugerindo que a retirada dos estímulos será calibrada para ajudar o setor a se recuperar.
A reação do mercado ao discurso de Yellen foi positiva. O dólar comercial se desvalorizou frente ao real, num movimento alinhado com o mercado externo, enquanto a Bolsa de Valores subiu 1,58% e retomou o patamar dos 48 mil pontos, fechando aos 48.462 pontos. O volume negociado foi de R$ 6,4 bilhões. A moeda americana caiu 0,16% e terminou o dia negociada a R$ 2,402. Para analistas, o discurso de Yellen não trouxe sinais de mudanças na condução da política monetária, o que na prática significa que os juros devem continuar baixos por um período mais longo. Isso agradou aos investidores.

 WALL STREET FECHA EM ALTA

Para o economista Rodolfo Oliveira, analista de economia internacional da consultoria Tendências, o discurso de Yellen não trouxe mudanças — e portanto, incertezas — em relação à postura que o Fed vinha tendo na retirada dos estímulos. A presidente do Fed confirmou que a economia americana cresce, mas ainda há problemas.
— O mercado de trabalho ainda não atingiu o pleno emprego, a inflação está abaixo da meta (2%), e a demanda poderia estar mais forte. Vale destacar que a nova presidente do Fed defendeu a postura da instituição até agora (estimulando a economia através da compra de títulos e mantendo os juros baixos). Ela atribuiu a recuperação do país a esses fatores, e o mercado reagiu positivamente — afirmou Oliveira, da Tendências.
Outro fator que animou os mercados foi a expectativa de que a Câmara dos Representantes autorizaria o governo americano superar o limite de endividamento após 27 de fevereiro, data em que o Executivo ficaria proibido de gastar além do teto permitido, elevando o risco de um calote. A medida, costurada pelo líder republicano e presidente da Câmara, John Boehner, acabou sendo aprovada ontem à noite. Por 221 a 201 votos, os deputados americanos autorizaram o governo a superar o teto de endividamento pelo período de um ano. Vinte e oito republicanos votaram com 193 democratas, representando uma vitória para o partido do presidente Barack Obama. A decisão vai agora ao Senado, onde os democratas têm ampla maioria. A votação deve ocorrer ainda esta semana.
Pela manhã, o BC realizou dois leilões de contratos de swap cambial, equivalentes à venda de dólar no mercado futuro, que ajudaram na desvalorização da moeda americana. Foram ofertados quatro mil contratos, o equivalente a US$ 196,9 milhões. Também foram rolados mais 10,5 mil contratos que vencem em março e somaram US$ 515,6 milhões. Após os leilões, o dólar mudou de direção e passou a subir. Só na reta final do pregão voltou a se desvalorizar. O discurso de Yellen também animou investidores em Wall Street. O Dow Jones avançou 1,22%; o S&P 500, 1,11%; e o Nasdaq, 1,03%.

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