quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Energia sem segurança

Fonte: Correio Braziliense

Sistema elétrico do país tem trabalhado com apenas 1% de folga em alguns dias, bem abaixo do mínimo de 5%

SÍLVIO RIBAS


O sistema elétrico brasileiro voltou a mostrar ontem que está no limite, elevando os custos da energia e reforçando os riscos ao abastecimento. Uma das provas mais claras desse desequilíbrio estrutural está na disponibilidade efetiva de eletricidade em comparação à atual demanda. Os padrões técnicos recomendam que, mesmo nos picos de consumo, o sistema opere com folga de 5% sobre a carga máxima. Essa margem de segurança, chamada de reserva girante, ficou abaixo de 1% nos dias 29 e 30 de janeiro.

Entre os que vêm alertando o governo sobre a baixa confiabilidade na manobra do sistema, está o engenheiro Mário Veiga, considerado um conselheiro informal da presidente Dilma Rousseff no setor. Contrariando a garantia dada nesta semana pelo Ministério de Minas e Energia (MME), de que não há ameaça de cortes no fornecimento, o especialista vê risco de 17,5% de racionamento neste ano. É mais do que o triplo dos 5% considerados aceitáveis pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). Para ele, as deficiências de abastecimento são alarmantes e apontam para blecautes em série.
"Não é possível ficar tranquilo em um cenário desses. É uma pena que o diálogo não tenha prevalecido antes para evitar todo esse estresse", afirmou Walter Fróes, presidente da CMU. Segundo ele, há informações de que o desequilíbrio de oferta e demanda entre a região Norte, com reservatórios de hidrelétricas em melhor nível, e o Sul e o Sudeste, com elevada demanda e geração comprometida, elevou os riscos operacionais. "A linha que caiu e provocou o apagão de terça-feira estava sobrecarregada, transportando 115% da capacidade", ilustrou.
 

Reservatórios

Ontem, o ONS informou que os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste, os mais importantes do país, voltaram a baixar, alcançando os piores níveis desde 2001, ano do racionamento de energia. Refletindo o forte consumo de energia e a estiagem, o total armazenado chegou na última terça-feira a 36,69% da capacidade total, queda de 0,51 ponto percentual sobre o dia anterior. Há uma semana, o patamar era de 38,9%. Um ano atrás, era 42,9%. Em Três Marias (MG), o volume está em 27,56%, algo considerado crítico para um mês de chuvas. No Sul, os reservatórios estão com 46,31% da capacidade, 1,19 ponto percentual a menos. 
Em contrapartida, a geração média de energia pelas usinas termelétricas atingiu 12.887 megawatts (MW) nos 10 primeiros dias de fevereiro e bateu novo recorde. Segundo o ONS, essa contribuição ao sistema correspondeu a 18,38% da demanda nacional no período, sendo o restante coberto quase totalmente pelas hidrelétricas. Em igual período de 2013, foram gerados pelas termelétricas 11.701 MW médios, 19,28% da eletricidade consumida no país. A capacidade do parque térmico é de 22 mil MW, que não pode ser acionada toda de uma só vez por razões técnicas.
Para completar os receios de analistas, a entrega de linhas de transmissão está comprometida: cerca de 70% estão atrasadas em relação ao cronograma do governo. Isso explica por que as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, começaram a gerar energia ainda não aproveitada pelo sistema. Problema igual ocorre com parque eólico na Bahia.
Alexei Vivan, advogado especializado em energia do escritório L.O. Baptista, afirma que o término do horário de verão no próximo sábado não vai interferir no quadro geral de escassez de eletricidade. Ele lembra que o esquema serve basicamente para dar mais segurança nos chamados horários de pico.
 

Alta tensão

Sinais de estresse no mercado energético que preocupam a indústria nacional
- Nível dos reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste já estão abaixo de 37%, o menor desde 2001
- Consumo médio nas regiões Sul e Sudeste tem batido sucessivos recordes nas últimas semanas
- Uso das termelétricas, de energia mais cara, é crescente e, desde ontem, já respondem por 18,38% da demanda
- Governo revela divergências internas sobre o cenário e descarta pedir racionalização do consumo
- Das linhas de transmissão ainda em obras, cerca de 70% estão, em média, 12 meses atrasadas
- Recursos para cobrir rombos de fundos setoriais e perdas de distribuidoras seguem indefinidos
- Começa a se temer os reflexos das restrições na oferta de energia ao mercado de gás natural e os efeitos na inflação
- Fragilidade do sistema se revela nos blecautes, que tendem a ser cada vez mais frequentes
- Em razão da falta de linhas de transmissão, geração de usinas do Norte não está sendo aproveitada

Fontes: especialistas

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