Sistema elétrico do país tem trabalhado com apenas 1% de folga em alguns dias, bem abaixo do mínimo de 5%
SÍLVIO RIBAS
O sistema elétrico brasileiro voltou a mostrar ontem que está no
limite, elevando os custos da energia e reforçando os riscos ao
abastecimento. Uma das provas mais claras desse desequilíbrio estrutural
está na disponibilidade efetiva de eletricidade em comparação à atual
demanda. Os padrões técnicos recomendam que, mesmo nos picos de consumo,
o sistema opere com folga de 5% sobre a carga máxima. Essa margem de
segurança, chamada de reserva girante, ficou abaixo de 1% nos dias 29 e
30 de janeiro.
Entre os que vêm alertando o governo sobre a
baixa confiabilidade na manobra do sistema, está o engenheiro Mário
Veiga, considerado um conselheiro informal da presidente Dilma Rousseff
no setor. Contrariando a garantia dada nesta semana pelo Ministério de
Minas e Energia (MME), de que não há ameaça de cortes no fornecimento, o
especialista vê risco de 17,5% de racionamento neste ano. É mais do que
o triplo dos 5% considerados aceitáveis pelo Operador Nacional do
Sistema (ONS). Para ele, as deficiências de abastecimento são alarmantes
e apontam para blecautes em série.
"Não é possível ficar
tranquilo em um cenário desses. É uma pena que o diálogo não tenha
prevalecido antes para evitar todo esse estresse", afirmou Walter Fróes,
presidente da CMU. Segundo ele, há informações de que o desequilíbrio
de oferta e demanda entre a região Norte, com reservatórios de
hidrelétricas em melhor nível, e o Sul e o Sudeste, com elevada demanda e
geração comprometida, elevou os riscos operacionais. "A linha que caiu e
provocou o apagão de terça-feira estava sobrecarregada, transportando
115% da capacidade", ilustrou.
Reservatórios
Ontem, o ONS informou que os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste
e do Centro-Oeste, os mais importantes do país, voltaram a baixar,
alcançando os piores níveis desde 2001, ano do racionamento de energia.
Refletindo o forte consumo de energia e a estiagem, o total armazenado
chegou na última terça-feira a 36,69% da capacidade total, queda de 0,51
ponto percentual sobre o dia anterior. Há uma semana, o patamar era de
38,9%. Um ano atrás, era 42,9%. Em Três Marias (MG), o volume está em
27,56%, algo considerado crítico para um mês de chuvas. No Sul, os
reservatórios estão com 46,31% da capacidade, 1,19 ponto percentual a
menos.
Em contrapartida, a geração média de energia pelas
usinas termelétricas atingiu 12.887 megawatts (MW) nos 10 primeiros dias
de fevereiro e bateu novo recorde. Segundo o ONS, essa contribuição ao
sistema correspondeu a 18,38% da demanda nacional no período, sendo o
restante coberto quase totalmente pelas hidrelétricas. Em igual período
de 2013, foram gerados pelas termelétricas 11.701 MW médios, 19,28% da
eletricidade consumida no país. A capacidade do parque térmico é de 22
mil MW, que não pode ser acionada toda de uma só vez por razões
técnicas.
Para completar os receios de analistas, a entrega de
linhas de transmissão está comprometida: cerca de 70% estão atrasadas em
relação ao cronograma do governo. Isso explica por que as hidrelétricas
de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, começaram a gerar energia ainda
não aproveitada pelo sistema. Problema igual ocorre com parque eólico na
Bahia.
Alexei Vivan, advogado especializado em energia do
escritório L.O. Baptista, afirma que o término do horário de verão no
próximo sábado não vai interferir no quadro geral de escassez de
eletricidade. Ele lembra que o esquema serve basicamente para dar mais
segurança nos chamados horários de pico.
Alta tensão
Sinais de estresse no mercado energético que preocupam a indústria nacional
- Nível dos reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste já estão abaixo de 37%, o menor desde 2001
- Consumo médio nas regiões Sul e Sudeste tem batido sucessivos recordes nas últimas semanas
- Uso das termelétricas, de energia mais cara, é crescente e, desde ontem, já respondem por 18,38% da demanda
- Governo revela divergências internas sobre o cenário e descarta pedir racionalização do consumo
- Das linhas de transmissão ainda em obras, cerca de 70% estão, em média, 12 meses atrasadas
- Recursos para cobrir rombos de fundos setoriais e perdas de distribuidoras seguem indefinidos
- Começa a se temer os reflexos das restrições na oferta de energia ao mercado de gás natural e os efeitos na inflação
- Fragilidade do sistema se revela nos blecautes, que tendem a ser cada vez mais frequentes
- Em razão da falta de linhas de transmissão, geração de usinas do Norte não está sendo aproveitada
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