Fonte: O Globo
ATAQUE À LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Advogado de jovens que acenderam rojão em manifestação diz que eles ganham para protestar
MARIA ELISA ALVES
Pode ter começado com R$ 0,25 — valor do reajuste das passagens de
ônibus contra o qual começaram os protestos —, mas agora o valor e as
motivações em jogo podem ser bem diferentes. Alguns manifestantes,
depois de provocarem quebraquebra e lançarem explosivos em
manifestações, voltariam para casa com R$ 150 no bolso. A informação é
do advogado Jonas Tadeu Nunes, que defende os dois jovens acusados de
terem acendido o rojão que, na quinta-feira passada, atingiu o
cinegrafista Santiago Andrade, provocando sua morte. Fábio Raposo e Caio
Silva de Souza, que já estão presos, teriam dito ao advogado que foram
aliciados e remunerados para provocar tumultos. De acordo com Jonas,
eles não mencionaram nenhum nome, mas não seria difícil identificar os
responsáveis:
— A dica que eu dou, sem levantar nomes, nem a
suspeita sobre qualquer pessoa pública, é que vocês investiguem
diretórios regionais de partidos políticos, vereadores, determinados
deputados estaduais. E não só aqui no Rio de Janeiro. Investiguem em São
Paulo, nas grande capitais. Tem muita gente fomentando isso — disse o
advogado em entrevista à GloboNews ontem.
TRANSPORTE PARA MANIFESTANTES
Segundo Jonas, Caio e Fábio já tinham participado de outros protestos e
eram buscados em casa, em transporte providenciado pelos supostos
aliciadores, que também forneceriam explosivos, máscaras de gás e
"acessórios de guerra". Apesar de agirem juntos, nem todos os
baderneiros se conhecem bem: segundo o advogado, o normal é que todos
usem codinomes. A identidade de quem pagaria a "bolsa vandalismo" não
foi revelada por Jonas, que disse desconhecer a informação:
—
Eles não deram o nome de ninguém, mas, muitas vezes, havia ativistas
ligados a políticos, e eu não estou levantando o nome dos que chegaram
lá e pagaram a eles — disse o advogado, acrescentando que há um esquema
de "pirâmide". — O ativista que é muito próximo a determinado organismo
sai fazendo a pirâmide, sai aliciando a mando de determinada fonte, e
isso vai crescendo.
Além de Caio e Fábio, que admitiram ter
usado explosivos menos fortes em outros protestos, outros jovens teriam
confirmado o esquema ao advogado.
— Estive com quatro jovens que
vivem amontoados num cômodo, recebendo dinheiro de aliciadores para
alimentação e passagens — disse ele ao GLOBO. — Esses grupos agem como
células, e a base nem sabe quem está por trás da fonte de financiamento.
São jovens com baixa instrução e de famílias pobres, que vão perder a
liberdade, enquanto os verdadeiros culpados, os aliciadores, vão
continuar livres. Esses são os verdadeiros responsáveis por desgraçar a
vida do cinegrafista e desses jovens. Esse aliciamento tem que parar.
Jonas, que frisou não ter partido político, contou que conversou com
vários manifestantes e que a tendência é que os protestos piorem:
— A presidente Dilma Rousseff disse que ia botar a Polícia Federal para
concluir esse inquérito. Mas ela não precisa mais concluir esse
inquérito (da morte de Santiago). Ela tem que mandar investigar de onde
vem esse fomento, essa remuneração, esse investimento financeiro nas
manifestações, que, daqui para a frente, pelas informações que a gente
teve, tendem a piorar. Um outro rapaz e o Caio me disseram que há
manifestações programadas. Eles seriam convocados e remunerados.
Jonas acrescentou que os protestos eram uma fonte de renda extra para
Caio, que ganha salário mínimo e não teria dinheiro para comprar
máscaras ou os fogos usados nos protestos. Segundo ele, o rapaz levava
marmita para o trabalho e andava com o dinheiro da passagem contado.
Na avaliação do sociólogo Gláucio Soares, é plausível a denúncia de que
jovens estariam sendo aliciados para provocar tumultos. Ele não não
descarta a participação de organizações políticas, nem de grupos ligados
ao tráfico de drogas. Segundo Gláucio, há interesses dos dois lados:
— Não creio que, na ética de alguns movimentos políticos, pagar para
gerar violência esteja além das concessões que possam fazer. Por outro
lado, organizações do tráfico também estão interessadas em retirar os
PMs das favelas. Há muitos interesses em jogo.
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