Oito policiais foram internados em estado grave; tumulto ocorreu na Praça dos Três Poderes, diante do Planalto
CAROLINA BRÍGIDO, CATARINA
ALENCASTRO E LUIZA DAMÉ
BRASÍLIA- Trinta policiais militares e 12 sem-terra ficaram feridos
ontem durante um confronto na Praça dos Três Poderes, em frente ao
Palácio do Planalto. Oito PMs estão internados em estado grave. O
tumulto ocorreu durante a marcha do Movimento dos Sem Terra (MST) pela
Esplanada dos Ministérios, que reuniu cerca de 15 mil pessoas, segundo a
PM. Os militantes do MST usaram paus, pedras portuguesas arrancadas do
piso da praça e martelos no confronto. Pelo lado da Polícia Militar,
foram usados tiros de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.
Francinaldo Alves, dirigente do MST, foi preso.
Embora a
confusão tenha ocorrido nas proximidades do Palácio do Planalto, o
conflito começou diante do Supremo Tribunal Federal (STF), onde a sessão
foi interrompida abruptamente quando os manifestantes ameaçaram invadir
o prédio. No momento da confusão, quem presidia a sessão era o
vice-presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski.
— Fui
informado agora pela segurança de que o tribunal corre o risco de ser
invadido. Vamos fazer um intervalo na sessão — disse o presidente
interino.
Mais tarde, a sessão foi retomada. A presidente Dilma
Rousseff, que deixou o Planalto, pouco antes das 14h, transferiu sua
agenda para o Palácio da Alvorada, distante seis quilômetros da
manifestação, que já estava programada. Segundo a PM, os manifestantes
conseguiram derrubar cercas de proteção na Praça dos Três Poderes, tanto
do lado do STF como do Planalto.
PARA MST, "REPRESSÃO INACEITÁVEL"
O comandante do policiamento regional metropolitano da PM, coronel
Florisvaldo Ferreira César, disse acreditar que grupos infiltrados entre
os sem-terra iniciaram a ofensiva contra a polícia.
— Não
acredito que tenha sido gente do MST, foram grupos infiltrados que agem
com extrema violência. Trabalho com o MST há 14 anos, esta foi a
primeira vez que vi policiais feridos dessa maneira — disse o
comandante.
O MST divulgou nota afirmando que houve uma
"repressão inaceitável" e que o confronto começou porque policiais
impediram que sem-terra retirassem do bagageiro de seu ônibus materiais
que seriam utilizados no ato. "Essa ação inconsequente da polícia deu
início à confusão", afirma a nota.
Líderes do grupo afirmam que
o governo não tem habilidade para resolver as demandas do setor,
especialmente no que tange à reforma agrária.
— Fomos reprimidos
pela polícia do Estado. Primeiro, em frente ao STF e depois no
Planalto. Isso é incabível, inconcebível e inaceitável. É mais uma
amostra da incapacidade do governo em atender as demandas do MST — disse
José Ricardo Silva, da direção nacional do MST.
O efetivo da PM
foi de 650 homens, incluindo 400 das forças especiais. Uma outra equipe
da segurança da Presidência reforçou o aparato policial, para impedir
uma eventual entrada de militantes no Planalto. Um pelotão de 150
soldados da Polícia do Exército cercou o prédio.
Um pouco antes
do confronto, o ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho, foi ao
encontro do MST e recebeu de João Pedro Stédile, líder do MST, uma
carta de reivindicação com 12 pontos.
— Disseram que o governo
deixou de cumprir alguns compromissos, me entregaram este documento, que
recebi e vou entregar à presidente, que vai estar com eles amanhã
(hoje) às 9h, parar fazer o diálogo com mais calma — disse o ministro.
Gilberto estava no térreo do Planalto, retornando a seu gabinete no
quarto andar, quando começaram a estourar bombas do lado de fora. O MST
montou 15 barracas de madeira e lona preta na Praça dos Três Poderes, em
frente ao Planalto. Também depositou cruzes, feitas por crianças,
simbolizando os trabalhadores mortos nos conflitos de terra. A marcha do
MST saiu do ginásio Nilson Nelson, onde acontece o 6º Congresso
Nacional do MST.
TUMULTO DIANTE DE EMBAIXADA
No início da tarde, os sem-terra seguiram até a embaixada dos Estados
Unidos onde houve início de tumulto. Em meio à tensão gerada pela rápida
aproximação dos manifestantes, líderes do movimento gritavam do alto do
carro de som para a PM "abaixar as armas", o que gerou correria.
Um ato simbólico planejado pelo MST foi impedido: um caminhão cheio de
embalagens de plástico, com ícones de caveira e produtos tóxicos, não
pôde ser descarregado por causa da forte segurança. A intenção era
deixar esses grandes recipientes em frente à embaixada, simbolizando "o
lixo do agronegócio". O grupo colou cartazes no muro, pedindo liberdade
para presos políticos cubanos e repudiando a associação de alimento à
mercadoria. Vaias e gritos de ordem eram constantes.
— O terrorismo americano está vigiando a gente. Vaias para os arquitetos da morte! — disse o locutor do carro de som.
Gilberto Carvalho afirmou que o governo investiu na melhoria dos
assentamentos, mas reconheceu que, para o MST, o fundamental é assentar
os trabalhadores rurais que ainda estão embaixo de lona pelo Brasil
afora.
— No ano passado, de fato, foi um número menor de
assentamentos, mas nunca se gastou tanto no estímulo às cooperativas.
Agora a presidenta vai discutir um plano para termos novos
assentamentos, mas sempre com esse cuidado da qualidade, para que as
pessoas tenham condições de produzir como cidadãos — disse Gilberto.
— O assentamento do governo Dilma foi o pior desde dos anos 60 — disse
Roberto Baggio, da coordenação do MST. De manhã, crianças e professores
do MST ocuparam, por cerca de duas horas, a entrada do Ministério da
Educação. O MST denuncia o fechamento de 37 mil escolas no campo nos
últimos 12 anos, a falta de política de erradicação do analfabetismo e a
desvalorização dos profissionais da Educação.
— Hoje, existem
apenas 76 mil escolas no campo, e muitas delas funcionam sem biblioteca,
laboratórios, algumas até sem água encanada — disse Márcia Mara Ramos,
do MST.
O ministro da Educação, José Henrique Paim, recebeu
manifesto dos sem-terrinha e prometeu reduzir as desigualdades entre a
educação no campo e na cidade.

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