quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Conflito entre sem-terra e PMs deixa 42 feridos

Fonte: O Globo

Oito policiais foram internados em estado grave; tumulto ocorreu na Praça dos Três Poderes, diante do Planalto

CAROLINA BRÍGIDO, CATARINA

ALENCASTRO E LUIZA DAMÉ

 
BRASÍLIA- Trinta policiais militares e 12 sem-terra ficaram feridos ontem durante um confronto na Praça dos Três Poderes, em frente ao Palácio do Planalto. Oito PMs estão internados em estado grave. O tumulto ocorreu durante a marcha do Movimento dos Sem Terra (MST) pela Esplanada dos Ministérios, que reuniu cerca de 15 mil pessoas, segundo a PM. Os militantes do MST usaram paus, pedras portuguesas arrancadas do piso da praça e martelos no confronto. Pelo lado da Polícia Militar, foram usados tiros de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Francinaldo Alves, dirigente do MST, foi preso.

Embora a confusão tenha ocorrido nas proximidades do Palácio do Planalto, o conflito começou diante do Supremo Tribunal Federal (STF), onde a sessão foi interrompida abruptamente quando os manifestantes ameaçaram invadir o prédio. No momento da confusão, quem presidia a sessão era o vice-presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski.
 — Fui informado agora pela segurança de que o tribunal corre o risco de ser invadido. Vamos fazer um intervalo na sessão — disse o presidente interino.
 Mais tarde, a sessão foi retomada. A presidente Dilma Rousseff, que deixou o Planalto, pouco antes das 14h, transferiu sua agenda para o Palácio da Alvorada, distante seis quilômetros da manifestação, que já estava programada. Segundo a PM, os manifestantes conseguiram derrubar cercas de proteção na Praça dos Três Poderes, tanto do lado do STF como do Planalto.
 

PARA MST, "REPRESSÃO INACEITÁVEL"

O comandante do policiamento regional metropolitano da PM, coronel Florisvaldo Ferreira César, disse acreditar que grupos infiltrados entre os sem-terra iniciaram a ofensiva contra a polícia.
— Não acredito que tenha sido gente do MST, foram grupos infiltrados que agem com extrema violência. Trabalho com o MST há 14 anos, esta foi a primeira vez que vi policiais feridos dessa maneira — disse o comandante.
 O MST divulgou nota afirmando que houve uma "repressão inaceitável" e que o confronto começou porque policiais impediram que sem-terra retirassem do bagageiro de seu ônibus materiais que seriam utilizados no ato. "Essa ação inconsequente da polícia deu início à confusão", afirma a nota.
 Líderes do grupo afirmam que o governo não tem habilidade para resolver as demandas do setor, especialmente no que tange à reforma agrária.
— Fomos reprimidos pela polícia do Estado. Primeiro, em frente ao STF e depois no Planalto. Isso é incabível, inconcebível e inaceitável. É mais uma amostra da incapacidade do governo em atender as demandas do MST — disse José Ricardo Silva, da direção nacional do MST.
O efetivo da PM foi de 650 homens, incluindo 400 das forças especiais. Uma outra equipe da segurança da Presidência reforçou o aparato policial, para impedir uma eventual entrada de militantes no Planalto. Um pelotão de 150 soldados da Polícia do Exército cercou o prédio.
 Um pouco antes do confronto, o ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho, foi ao encontro do MST e recebeu de João Pedro Stédile, líder do MST, uma carta de reivindicação com 12 pontos.
— Disseram que o governo deixou de cumprir alguns compromissos, me entregaram este documento, que recebi e vou entregar à presidente, que vai estar com eles amanhã (hoje) às 9h, parar fazer o diálogo com mais calma — disse o ministro.
Gilberto estava no térreo do Planalto, retornando a seu gabinete no quarto andar, quando começaram a estourar bombas do lado de fora. O MST montou 15 barracas de madeira e lona preta na Praça dos Três Poderes, em frente ao Planalto. Também depositou cruzes, feitas por crianças, simbolizando os trabalhadores mortos nos conflitos de terra. A marcha do MST saiu do ginásio Nilson Nelson, onde acontece o 6º Congresso Nacional do MST.
 

TUMULTO DIANTE DE EMBAIXADA

No início da tarde, os sem-terra seguiram até a embaixada dos Estados Unidos onde houve início de tumulto. Em meio à tensão gerada pela rápida aproximação dos manifestantes, líderes do movimento gritavam do alto do carro de som para a PM "abaixar as armas", o que gerou correria.
Um ato simbólico planejado pelo MST foi impedido: um caminhão cheio de embalagens de plástico, com ícones de caveira e produtos tóxicos, não pôde ser descarregado por causa da forte segurança. A intenção era deixar esses grandes recipientes em frente à embaixada, simbolizando "o lixo do agronegócio". O grupo colou cartazes no muro, pedindo liberdade para presos políticos cubanos e repudiando a associação de alimento à mercadoria. Vaias e gritos de ordem eram constantes.
— O terrorismo americano está vigiando a gente. Vaias para os arquitetos da morte! — disse o locutor do carro de som.
Gilberto Carvalho afirmou que o governo investiu na melhoria dos assentamentos, mas reconheceu que, para o MST, o fundamental é assentar os trabalhadores rurais que ainda estão embaixo de lona pelo Brasil afora.
— No ano passado, de fato, foi um número menor de assentamentos, mas nunca se gastou tanto no estímulo às cooperativas. Agora a presidenta vai discutir um plano para termos novos assentamentos, mas sempre com esse cuidado da qualidade, para que as pessoas tenham condições de produzir como cidadãos — disse Gilberto.
— O assentamento do governo Dilma foi o pior desde dos anos 60 — disse Roberto Baggio, da coordenação do MST. De manhã, crianças e professores do MST ocuparam, por cerca de duas horas, a entrada do Ministério da Educação. O MST denuncia o fechamento de 37 mil escolas no campo nos últimos 12 anos, a falta de política de erradicação do analfabetismo e a desvalorização dos profissionais da Educação.
— Hoje, existem apenas 76 mil escolas no campo, e muitas delas funcionam sem biblioteca, laboratórios, algumas até sem água encanada — disse Márcia Mara Ramos, do MST.
O ministro da Educação, José Henrique Paim, recebeu manifesto dos sem-terrinha e prometeu reduzir as desigualdades entre a educação no campo e na cidade.

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