Por 467 votos, Câmara tira mandato de deputado preso na Papuda
ISABEL BRAGA e FERNANDA KRAKOVICS
BRASÍLIA- Seis meses depois da desgastante sessão que absolveu, pelo
voto secreto, o deputado presidiário Natan Donadon (sem-partido-RO), o
plenário da Câmara cassou, por 467 votos, com apenas uma abstenção, o
mandato do parlamentar, na primeira votação da História do Congresso
Nacional em que a perda de mandato foi decidida pelo voto aberto. Além
da votação aberta, a cassação ocorreu com casa cheia, já que as
ausências ficaram registradas no painel eletrônico. Da primeira vez,
quando a votação foi secreta, Donadon, condenado pelo Supremo Tribunal
Federal pelos crimes de peculato e formação de quadrilha, foi absolvido
porque não foram dados sequer os 257 votos necessários à cassação.
A única abstenção foi do deputado Asdrúbal Bentes (PMDB-PA). Entre os
ausentes estava o deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG), denunciado pela
Procuradoria Geral da República, sob a acusação de envolvimento no
mensalão tucano em Minas Gerais.
BODE EXPIATÓRIO
Donadon chegou à Câmara acompanhado por seguranças e vestindo uma roupa
branca, de uso autorizado pela penitenciária da Papuda e que substitui o
uniforme tradicional. Sentado no plenário, já de terno e gravata,
Donadon disse que é um "bode expiatório". Afirmou que não renunciou
porque é inocente e disse não saber por que está na prisão. O deputado
presidiário afirmou que vai recorrer ao STF:
— Quem está com a verdade não tem por que fugir da raia. Eu, por mim, estaria exercendo o mandato porque a Câmara me absolveu.
Asdrúbal Bentes, que se absteve, disse que não votou pela cassação
porque foi condenado a três anos de prisão, em regime aberto, acusado de
ter doado 13 laqueaduras na campanha municipal de 2004:
— Não me sinto à vontade para condenar alguém.
Ao se levantar e ver o deputado Cândido Vaccarezza (PTSP), o
deputado-presidiário deu um abraço no petista, que ficou constrangido.
— Está todo mundo com medo. É ano eleitoral. Se ele não for cassado, eu
não conheço mais esta Casa — dizia, antes do resultado, o deputado
Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).
Donadon compareceu, mas o
presidente da Casa, Henrique Alves (PMDB-RN), não lhe deu a palavra. A
defesa ficou a cargo do advogado Michel Saliba. Antes da fala de
Henrique, deputados chegaram a ameaçar deixar o plenário, com temor de
que ele fosse à tribuna.
Depois de anunciar o resultado, o
presidente da Câmara leu o documento da perda do mandato e anunciou que o
titular é o atual suplente, Amir Lando (PMDB-RO), que se ausentou da
votação da noite passada.
— Cumprimos o nosso dever. Não foi uma
noite prazerosa, foi constrangedora. Foi a primeira votação com o voto
aberto. Foram dois momentos: aquele, da outra votação (com voto
secreto), que lamentamos, tivemos muitos ausentes, e o de hoje quando
cumprimos nosso dever — disse Henrique Alves.

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